{"0":"EMPRESAS\nUNIDAS PELOS\nDIREITOS DAS\nMULHERES\nComo podemos contribuir para\nprevenir e enfrentar a violência\ncontra mulheres e meninas?","1":"APRESENTAÇÃO\nCom frequência, acompanhamos notícias e relatos das mais variadas formas\nde violência contra mulheres no Brasil e no mundo. Mesmo com as subnotificações\ne dificuldades de apuração, os números são alarmantes. Dados do Mapa\nNacional da Violência de Gênero 1 de 2023 apontam que:\n25.458.500 mulheres já sofreram algum tipo de violência\ndoméstica ou familiar na vida;\n409.580 mulheres foram vítimas de ameaça, lesão corporal,\nhomicídio ou feminicídio;\n529.690 mulheres recorreram à medida protetiva de urgência,\nmas apenas 67% foram concedidas;\n3.365 mulheres foram vítimas de homicídio e 1.127 de feminicídio,\no que equivale a 1 feminicídio a cada 100 mil mulheres;\n4 em cada 10 casos ocorreram dentro de casa.\nSó em 2022, foram registrados 47.857 casos de violência sexual, sendo que\n68% das vítimas eram menores de idade.\n\nO feminicídio entre mulheres pardas e pretas é maior em comparação a\noutras raças/cores: 0,91 e 0,76, respectivamente, a cada 100 mil mulheres;\nentre mulheres brancas, a taxa é de 0,34 a cada 100 mil. Isso nos mostra\nque enfrentar a violência contra mulheres e meninas é também empreender\nesforços para enfrentar o racismo.\nEstamos lidando com mortes que poderiam ser evitadas. Mortes anunciadas,\nespecialmente porque grande parte dos assassinatos de mulheres tem como\nautor companheiros ou ex-companheiros. Houve um momento em que essas\nmulheres pediram ajuda? O que aconteceu quando elas procuraram a rede de\nenfrentamento à violência, os serviços de acolhimento, o sistema de justiça?\nProvavelmente, há um histórico de violências sofridas - física, psicológica,\nsexual, patrimonial e moral ? que antecedem sua morte. Esses dados indicam\nque, apesar de variados esforços, ainda há muito a se fazer.\nE por que a violência persiste, se já temos um conjunto de direitos que\nasseguram a igualdade entre mulheres e homens, com leis nacionais e\ninternacionais que protegem as meninas e mulheres e estabelecem a","2":"violência contra elas como uma grave violação de direitos humanos? Que ações\npodemos desenvolver para enfrentarmos, adequadamente, o problema?\nComo construir caminhos efetivos para apoiar as mulheres no exercício de seu\ndireito a uma vida livre de violências dentro e fora dos seus espaços de trabalho?\nResponder a essas perguntas não é tarefa fácil. O desafio é enorme. Afinal,\nesse é um fenômeno complexo e sistêmico que envolve desde as expectativas\nsobre a construção de nossas relações sociais, até as práticas que alicerçam\nnossa formação e constroem ? cotidianamente ? nossas subjetividades.\nPerceber a violência por esse prisma exige o reconhecimento de que ela\nnão se restringe às suas formas mais óbvias e visíveis (como lesões físicas\ne hematomas), nos invocando a refletir sobre as demais violações às quais\nmulheres e meninas são submetidas ao longo de suas vidas. Com isso,\nqueremos dizer que o desrespeito aos direitos das mulheres é socialmente\nconstruído e está na raiz da violência de gênero.\nNesse caminho, vamos elaborando processos de nomeação: violência\ndoméstica e familiar, assédios sexual e moral no trabalho, violência na\ninternet, violência contra meninas no espaço escolar, violência contra\nas mulheres com deficiência e sua interface com outros marcadores\nsociais, violência contra as mulheres em conflitos armados, em situações\nde guerra, violência contra as mulheres em tempos de isolamento social,\nviolência dentro e fora das empresas! A lista é extensa, sendo este rol\napenas exemplificativo.\nEm reconhecimento a isso, cada vez mais percebemos iniciativas públicas\ne privadas que abordam a questão: das artes às ações governamentais,\ndas escolas às atividades comunitárias, passando pela publicidade e, mais\nrecentemente, pelas empresas.\nEste é o objetivo deste material: por meio da experiência adquirida desde\n2019 com a Coalizão Empresarial pelo Fim da Violência Contra Mulheres e\nMeninas, convidamos você a refletir sobre o papel do setor privado nesta\nseara e, assim, empreender esforços para a construção de soluções criativas,\narticuladas e duradouras que colaborem para uma sociedade sem violência\ncontra meninas e mulheres.","3":"COMO A VIOLÊNCIA CONTRA\nMENINAS E MULHERES\nIMPACTA O SETOR PRIVADO?\nEntende-se a violência de gênero como\naquelas violações cometidas em razão\ndo gênero das pessoas envolvidas. Isso\nsignifica que, ao menos teoricamente,\nhomens e mulheres podem ser vitimizados.\nNa prática, no entanto, a referida expressão se tornou\nquase um sinônimo de violência contra mulheres e tem\nsido definida como qualquer ação ou conduta, baseada\nno gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico,\nsexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público\ncomo no privado (Convenção Interamericana para\nPrevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher,\nadotada pela OEA em 1994). Afinal, são elas que, em\ntodo o mundo, e historicamente, configuram-se como\no grupo mais afetado.\nAs violências de gênero podem se manifestar de diversas\nformas e costumam ser classificadas a partir de suas\ncaracterísticas (física, sexual, moral, psicológica, virtual\ne patrimonial) ou espaço de ocorrência e tipo de relações\nenvolvidas (assédios moral e sexual, importunação\nsexual, violência doméstica e intrafamiliar).","4":"COMO A VIOLÊNCIA CONTRA MENINAS E MULHERES IMPACTA O SETOR PRIVADO?\nNos interessam aqui, em particular, duas dessas expressões\nanteriormente mencionadas: a violência doméstica e\nintrafamiliar, e os assédios sexual e moral. Afinal, durante\nmuito tempo, essas violações foram consideradas\nrestritas aos espaços privados ou foram simplesmente\nnegligenciadas em termos de quais são seus impactos\nnegativos para o sujeito e para as corporações.\nVIOLÊNCIA\nDOMÉSTICA E INTRAFAMILIAR\n\nFaz referência à violência sofrida\nno ambiente doméstico e que pode\nassumir as formas física, moral,\nsexual, patrimonial, virtual ou\npsicológica. Ela acontece no\ncontexto das relações entre os\nmembros da comunidade familiar,\nformada por vínculos de\nparentesco natural (pai, mãe, filha\netc.) ou civil (marido, sogra,\npadrasto ou outros), por afinidade\n(por exemplo, o primo ou tio do\nmarido) ou afetividade (amigo ou\namiga que more na mesma casa).\nPor muito tempo, essa forma de violência foi considerada\num problema privado, a ser resolvido entre as partes\nenvolvidas e sobre o qual o mundo do trabalho ? e até\nmesmo o Estado - não teria qualquer responsabilidade.","5":"COMO A VIOLÊNCIA CONTRA MENINAS E MULHERES IMPACTA O SETOR PRIVADO?\nVIOLÊNCIA DOMÉSTICA E INTRAFAMILIAR\nQuem nunca ouviu a expressão\nem briga de marido e mulher não se mete a colher?\nEssa percepção tem se transformado, de modo a convocar\nnão apenas todo e qualquer sujeito, mas também toda\ne qualquer instância, em sua responsabilidade para\nenfrentar esse fenômeno e alterar essa realidade. Afinal,\ntem-se compreendido que a experiência da violência\nvivida tem impacto direto no pleno desenvolvimento de\ntodas as potencialidades no mundo do trabalho. Como\ndeixar os problemas pessoais em casa? quando estamos\nfalando de violência Nessas situações, é possível separar\nvida pessoal e profissional?\nA Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência\nDoméstica e Familiar com a Mulher (PCSVDFMulher)2\naponta que a violência contra as mulheres tem relação\ndireta com a sua capacidade de trabalho, afetando\nsua produtividade, sua autonomia e sua capacidade\ndecisória. Além disso, impõe gastos e prejuízos para\nempresas relacionados a danos à reputação, à queda\nde produtividade, maior turnover, comprometimento\nda capacidade da empresa de proporcionar saúde e\nsegurança adequadas aos colaboradores, prejuízo na\ncapacidade dos funcionários de chegar ou permanecer\nno trabalho, problemas relacionais (equipe) e\nadoecimentos psíquicos dos colaboradores em função\n2\nA PCSVDFMulher é uma iniciativa do Instituto Maria da Penha em parceria com a Universidade Federal do Ceará e tem como objetivo compreender que a violência\ncontra as mulheres, entendida como uma violação de direitos humanos, possui impactos socioeconômicos na vida das mulheres e de suas famílias, repercutindo\nno desenvolvimento do país. Para saber mais: https://www.institutomariadapenha.org.br/projetos/pesquisa-pcsvdfmulher.html. Acesso em 14/12/2020","6":"COMO A VIOLÊNCIA CONTRA MENINAS E MULHERES IMPACTA O SETOR PRIVADO?\nVIOLÊNCIA DOMÉSTICA E INTRAFAMILIAR\nde sentimentos de ansiedade, depressão ou vergonha\nda experiência de violação, por exemplo.\nEsses prejuízos também são identificados em situações\nde violência ocorridas dentro dos locais de trabalho,\nainda que suas dinâmicas, personagens e espaços de\nmanifestação sejam distintos.\nASSÉDIOS\nMORAL E SEXUAL\nOrganizações e espaços de trabalho são compostos\npor seres humanos. Sendo assim, é impossível ignorar\ncomo as diferentes relações, ideias, atitudes e opiniões\nse atravessam. Essa diversidade começa no momento\nda contratação e deve continuar nas ações cotidianas\nde investimento em estratégias que dão às mulheres e\nminorias o espaço para existirem em sua plenitude.","7":"COMO A VIOLÊNCIA CONTRA MENINAS E MULHERES IMPACTA O SETOR PRIVADO?\nASSÉDIOS MORAL E SEXUAL\nASSÉDIO MORAL\nPode ser definido como a exposição de pessoas, dentro\ndo espaço de trabalho, a situações humilhantes e\nconstrangedoras, de forma repetitiva e prolongada, e\ncostuma se manifestar por comportamentos, palavras,\natos, gestos ou escritos que possam trazer danos à\npersonalidade, dignidade ou integridade de sua vítima.\nÉ uma forma de violência que tem como objetivo\ndesestabilizar emocional e profissionalmente o\nindivíduo e pode ocorrer por meio de ações diretas\n(acusações, insultos, gritos, humilhações públicas) e/ou\nindiretas (propagação de boatos, isolamento, recusa\nna comunicação, fofocas e exclusão social).\nASSÉDIO SEXUAL\nÉ compreendido como toda e qualquer conduta\nindesejada, com natureza sexual, que restrinja a\nliberdade sexual de sua vítima, podendo se manifestar\nde maneiras variadas.\nDiferentemente do assédio moral, reiteração da conduta\nnão é imprescindível para a sua caracterização: um único\nato pode ser suficientemente grave para atingir a honra,\na dignidade e a moral da vítima.","8":"COMO A VIOLÊNCIA CONTRA MENINAS E MULHERES IMPACTA O SETOR PRIVADO?\nASSÉDIOS MORAL E SEXUAL\nNa prática, isso significa que uma organização\ncaracterizada por conflitos, situações de sobrecarga de\ntrabalho, stress, baixa autonomia, insegurança, disputa\nde interesses, microgerenciamento e vieses/atos\ndiscriminatórios potencializam a probabilidade de\ndinâmicas violentas, sejam elas diretas (e.g., casos de\nassédio) ou indiretas (e.g., negligência com, ou retaliação\na vítimas de violência doméstica). Nesse sentido, criar\numa organização na qual a diversidade possa prosperar,\nque garanta oportunidades genuinamente igualitárias e\nque seja livre de violência, exige um esforço dedicado.\nÉ preciso um compromisso ético na construção de uma\nsociedade sem violência contra mulheres e meninas.\nCompromisso esse que preserve sua integridade física e\npsíquica e que garanta, ainda, negócios mais rentáveis,\ncompetitivos3 e capazes de interferir no desenvolvimento\neconômico de forma ampliada e global.\n Handbook Addressing Violence and Harassment Against Women in the World of Work. UN Women, 2019. Disponível em https://www.unwomen.org/-/media/\nheadquarters/attachments/sections/library/publications/2019/addressing-violence-and-harassment-against-women-in-the-world-of-work-en.pdf?la=en","9":"A COALIZÃO\nEMPRESARIAL\nConforme previsto nos tratados internacionais4\nde proteção dos Direitos Humanos, os Estados são\nobrigados a empreender esforços para erradicar\na violência contra as mulheres e meninas, tanto\nno âmbito privado quanto no público. Porém, o\ncompromisso de efetivação dessas práticas não\nse restringe a ele. Afinal, é responsabilidade de toda\na sociedade promover e se engajar em ações que\ncontribuam para a construção de relações mais\ndemocráticas, tendo as empresas um lugar\nestratégico nesse esforço\nCientes do compromisso\ndo setor privado e de seu\nlugar estratégico em nossa\nsociedade, a Coalizão\nEmpresarial pelo Fim da\nViolência contra Mulheres e\nMeninas foi constituída com\no objetivo de transformar\nvidas e promover mudanças,\ninvestindo em ações\npreventivas e de cuidado,\ndentro e fora das empresas\nA proteção internacional dos direitos humanos das mulheres e meninas está prevista especialmente na Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de\nDiscriminação contra as Mulheres (CEDAW ? ONU - 1979), na Declaração sobre Eliminação da Violência contra as Mulheres (ONU ? 1993) e Convenção Interamericana\npara Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (OEA ? 1994). 5 Step It Up for Gender Equality: How Business and Philanthropic Leaders can be game\nchangers for Women. UN Women, 2015. Disponível em: https://www.unwomen.org/-/media/headquarters/attachments/sections/library/publications/2015/\nun women _step it up brochure_rd8_snglpgs-web.pdf?la=en","10":"A COALIZÃO EMPRESARIAL\nA Coalizão tem por missão articular as empresas para\nque desenvolvam ações pelo fim dos assédios sexual e\nmoral no ambiente de trabalho, de apoio às mulheres\nem situação de violência de gênero nas corporações e\nem suas cadeias de valor e para a construção de uma\nsociedade livre de violência contra mulheres e meninas.\nPara atingir seus objetivos, a Coalizão possui os\nseguintes pilares de atuação:\nGovernança: gestão eficiente e eficaz da iniciativa\nComunicação: interna e externa, focada no\naumento da conscientização, conhecimento e\nvolume de informações para reconhecer e\nsaber como atuar diante da violência contra\nmulheres e meninas;\nTreinamento e Educação: oficinas de formação,\ntreinamentos, benchmarking e capacitação para\ndesenvolvimento de políticas e procedimentos\nefetivos no enfrentamento à violência contra\nmulheres e meninas;\nAdvocacy: ação coordenada e com alto poder\nde incidência em políticas públicas, visando o\nengajamento de empresas, organizações da\nsociedade civil, agências internacionais e governo.","11":"PARA PENSAR\nOS CAMINHOS\nNa coordenação de esforços empreendidos pela\nCoalizão e desenvolvidos internamente por cada\nempresa, é preciso entender, como ponto de partida, que\nquando nos dispomos a desenvolver ações de prevenção\ne, especialmente, de acolhimento, nos tornamos\ncorresponsáveis na resposta às demandas apresentadas.\nO que\nfaremos\ncom elas?\nComo\nlidaremos com\na demanda\nque nos\nchega?\nCom quem\nmais\ndialogaremos\npara poder\natuar de forma\nresponsável?\nNesse sentido, não\npodemos agir sozinhas(os).\nSem o apoio da rede e o\nenvolvimento dos atores\nsociais estratégicos, a\nvontade de mudança tende\na ser frustrada. Frustração\nessa que atinge tanto\nquem se propõe a ajudar,\ncomo quem procura\nescuta e acolhimento.","12":"PARA PENSAR OS CAMINHOS\nPor isso, tão importante quanto pensar ações, é\nreconhecer quais os limites daquilo que nos propomos\na construir e, mais ainda, compreender o que significa,\npara a sua organização, o enfrentamento da violência\ncontra as meninas e mulheres. Precisamente:\nQue ações foram desenvolvidas?\nO que aprendemos com elas?\nQue aspectos podem ser melhorados?\nQue obstáculos enfrentamos?\nQue facilidades e parcerias construímos?\nAfinal, para\nfazer o futuro, é\npreciso, antes de\ntudo, conhecer o\npassado e\nreconhecer o\npresente!\nPor isso, tão importante quanto pensar ações, é\nreconhecer quais os limites daquilo que nos propomos\na construir e, mais ainda, compreender o que significa,\npara a sua organização, o enfrentamento da violência\ncontra as meninas e mulheres. Precisamente:\n? Que ações foram desenvolvidas?\n? O que aprendemos com elas?\n? Que aspectos podem ser melhorados?\n? Que obstáculos enfrentamos?\n? Que facilidades e parcerias construímos?\nPensando nisso, defendemos que boas práticas são\nconstruídas a partir de boas perguntas. E boas\nperguntas são aquelas que nos colocam desafios e que\nnos apontam caminhos nos quais uma trajetória pode\nser construída. Boas perguntas são, ainda, aquelas que\nsuscitam reflexões e novas perguntas, num contínuo\nde avaliação e revisão internas e externas.","13":"AS PERGUNTAS QUE\nORIENTAM O PROCESSO\nEntendemos que a pergunta em torno da qual gravita\nqualquer iniciativa de enfrentamento à questão da\nviolência contra as mulheres no setor privado seja:\nA minha\nação/iniciativa\nrespeita a\nautonomia\ndas mulheres?\nEntendemos que essa pergunta não seja apenas um\nponto de partida; ela é a pergunta central que deve\npercorrer todo o processo de escuta, cuidado e busca de\nsoluções. Não importa se as ações desenvolvidas são\npalestras sobre o tema, rodas de conversa, denúncia\nno canal/ouvidoria da empresa, atendimento realizado\npelos profissionais da saúde ou da área de recursos\nhumanos. As mulheres, quer estejam em situação de\nviolência ou não, devem ter reconhecidos seus direitos\ne autonomia para que possam decidir de que maneira\nquerem conduzir seus caminhos.","14":"AS PERGUNTAS QUE ORIENTAM O PROCESSO\nNa teoria, parece simples: basta escutar, oferecer ajuda,\ninformar os direitos que ela possui, garantir sua\npermanência no trabalho e encaminhar o caso, quando\nnecessário, para as autoridades. Respeitando, sempre,\nsua individualidade.Na prática, a história é outra:\nquando pensamos em\nsituações de violência,\ncom frequência observamos\nexperiências individuais\nserem encaixadas em um\npadrão. Parece que os\nouvidos ?se acostumam? às\nhistórias, tirando delas suas\nespecificidades e dores. Não\nraro, ainda, acompanhamos\nprofissionais incomodados\ncom as escolhas feitas pela\ncolaboradora e, assim, o\ndesejo de ?fazer a diferença?\ndá lugar ao desconforto,\naos apontamentos e ao\njulgamento. Como resultado,\nperde-se a potência de\ntransformação e, no lugar,\nreproduzem-se as\nviolências que nos\npropusemos a combater.","15":"COMO\nESTRUTURAR A MUDANÇA\nA esta altura da leitura, talvez você esteja se perguntando:\nMas como coloco em\nprática essa percepção\nda complexidade do\nfenômeno, como\nconstruo ações que\nde fato respeitem a\nautonomia das\nmulheres e como\npreparo minha\norganização para\ntal tarefa?\nO que devo\nfazer se algo\nnão der certo?\nComo posso\navaliar o impacto\nde minhas ações\nna vida das\nmulheres?\nNesse cenário, temos duas\nnotícias: uma boa e uma ruim.\nComecemos pela ruim: não há um único caminho\npossível e/ou uma receita pronta. Afinal, cada empresa\né um universo em si mesmo, assim como cada mulher.\nDito isso, nos cabe apresentar a notícia boa: essa mesma\nausência de fórmulas prontas nos abre a possibilidade\nde descobrir e construir muitas e diversas maneiras de\nenfrentar as situações, a partir das potencialidades de\ncada pessoa e de cada organização.","16":"COMO ESTRUTURAR A MUDANÇA\nNão há formas prescritas e pré-estabelecidas. Existem\nboas práticas e boas iniciativas. Talvez elas funcionem\nem uma determinada cultura organizacional e não\nfuncionem em outras. Por isso, insistimos: o que\ntrazemos a seguir não é um manual fechado e pronto,\nmas reflexões e sugestões que, baseadas em\nexperiências, estudos, acertos e erros, podem servir de\ninspiração para que a sua empresa também seja capaz\nde trilhar essa jornada.\nPequenas ações se tornam potentes quando abrimos\nespaços para que vozes silenciadas contem suas histórias!\nPonto de partida - diagnóstico inicial e\nreconhecimento da existência do problema:\nantes de implementar qualquer ação interna,\né muito importante que a empresa faça o\nmovimento de olhar para a sua própria história,\ninvestigando como tem visto e enfrentado o\nproblema (ex.: Já aconteceu algum episódio\nde violência com nossas(os) colaboradoras(es)\ne/ou terceirizadas(os)? Como atuamos na\nocasião?). Também é importante perceber qual\no perfil sociodemográfico das colaboradoras\ne colaboradores, a que territórios pertencem,\nque espaços ocupam dentro da hierarquia, que\nfunções desempenham e, principalmente, qual\na disponibilidade da alta liderança para se\nengajar nessa tarefa.","17":"COMO ESTRUTURAR A MUDANÇA\nCompreensão da estrutura do problema: para\nalém de um olhar interno e retrospectivo, é preciso\nverificar o nível de conhecimento a respeito do tema\ne se certificar de que a equipe que encabeçará\nessas iniciativas esteja disposta a se aprofundar no\nassunto. Considere, portanto, as seguintes questões\nO que sabemos sobre violência contra\nmeninas e mulheres?\nCompreendemos o desejo de muitas mulheres\nnão denunciarem seus agressores?\nO que sabemos da mulher/menina que nos\npropusemos a assistir? Ex.: Sabemos como é a\nregião onde ela mora? Qual é sua rede de apoio\nprimária - família e amigas(os)? Conhecemos suas\ncondições familiares? Quais relações ela possui?\nDe que forma sua família (nuclear e extensa)\npercebe a violência contra as mulheres?\nSão perguntas importantes para auxiliar a\nconstrução de um caminho da escuta no\nprocesso de acolhimento e atendimento.\nConhecer a história de vida das mulheres, suas\nrelações pessoais e as pessoas da sua rede de\nfamiliares e amigas(os) é fundamental para\nconstruir as estratégias de cuidado e proteção.","18":"COMO ESTRUTURAR A MUDANÇA\nIdentificação de parceiros: o enfrentamento à\nviolência não se faz só. Por isso, indicamos uma\navaliação de quem são ou serão os parceiros\n(internos e externos) da empresa. Para isso, avalie:\nSabemos quais os\nserviços públicos\ndisponíveis e acessíveis?\nTemos\ndiálogo\ncom esses\nserviços?\nEstamos\natentas(os) ao\ndesenvolvimento\ne execução das\npolíticas públicas\nno território em\nque atuamos?\nCom quais\nprofissionais\ndas instituições\nda rede de\natendimento e\nenfrentamento\npodemos contar?\nEssas perguntas são importantes, pois a construção\ne a execução de políticas públicas de enfrentamento\nà violência contra as mulheres são responsabilidade\ndo Estado e as empresas, considerando o lugar\nestratégico que ocupam, podem, inclusive,\ndesenvolver estratégias de advocacy.","19":"COMO ESTRUTURAR A MUDANÇA\nDesenvolvimento de uma política interna\ncoerente [compliance]: olhar para a cultura\norganizacional interna é fundamental. Já que\nestamos falando de um fenômeno social, é\nimportante refletir sobre como as relações\ndesiguais entre mulheres e homens dentro do\nambiente de trabalho também se expressam\npor meio do assédio. Mais do que uma série de\nintenções, o setor de Compliance tem papel\nfundamental na criação e gestão das práticas\npara o enfrentamento da violência quando ela\nacontece dentro da empresa. Por exemplo: o\nque fazemos quando a pessoa autora da\nviolência faz parte do nosso quadro de pessoal?\nOferta de treinamento adequado: para que se\nmodifique a cultura interna de uma organização,\né fundamental que se ofereça treinamento\nadequado para garantir que existam profissionais\ntreinadas(os) e capacitadas(os) para atuar\ncom o tema, sejam internos ou não. Avalie:\nas(os) profissionais da nossa empresa estão\ntreinadas(os) para compreender a\nindividualidade das mulheres? Conseguem\nperceber se há diferenças ao lidar com as\ncolaboradoras dentro da estrutura/hierarquia\nda empresa? Quais setores da nossa empresa\nestão engajados em ações para lidar com a\nquestão? Quais profissionais/parceiros podem\nnos auxiliar nos processos de formação?","20":"COMO ESTRUTURAR A MUDANÇA\nConstrução de ?awareness?: paralelamente à\nconstrução de ações de prevenção, cuidado e\nresponsabilização, é preciso que se trabalhe em\nsua divulgação. Afinal, a mudança na política\norganizacional precisa ser compartilhada\ncom todas(os) as(os) colaboradoras(es) que\npossam se beneficiar de sua existência. Para\nque isso seja possível, deve-se investir em\ncampanhas internas e externas, lembrando\nque a forma como comunicamos aquilo que\nqueremos dizer a respeito da violência deve\nser capaz de abrir a escuta para quem é mais\nreticente ou refratário ao tema.","21":"COMO ESTRUTURAR A MUDANÇA\nAvaliação, implementação e monitoramento:\na palavra implementação não está localizada\nentre avaliação e monitoramento de forma\naleatória, pelo contrário, localiza-se no meio\npara nos trazer a ideia de que não estamos\ndiante de situações imutáveis. Afinal, para que\navaliemos e monitoremos, faz-se necessária\na implementação de ações iniciais, mas dado\nesse passo, é importante perceber que a\nhistória não fica estacionada para que,\ncalmamente, analisemos o passado e\npensemos no futuro. Para isso, acione os\nparceiros e envolva também colaboradoras(es).","22":"COMO ESTRUTURAR A MUDANÇA\nCuidar de quem cuida: por fim, mas não menos\nimportante, vale nos perguntarmos sobre os\ncuidados que nossas empresas despendem às\ne aos profissionais que estão engajadas(os)\nnas ações de prevenção e enfrentamento à\nviolência. Dizemos isso porque não são\npequenas as chances de adoecimento e\nsofrimento que o cuidado e o trabalho com a\ntemática da violência podem trazer. Assim, é\nimportante que haja uma estrutura interna na\nqual as(os) profissionais engajadas(os) na\ntemática possam trocar experiências, suas\npercepções e avaliações sobre as situações\nvividas nos atendimentos e/ou acolhimentos.","23":"SETE AÇÕES QUE AS EMPRESAS\nPODEM IMPLEMENTAR\nPARA O ENFRENTAMENTO DA\nVIOLÊNCIA CONTRA A MULHER\nConscientização da alta liderança sobre as\nrelações de gênero e os impactos na cultura\nda violência.\nAdesão à Coalizão Empresarial pelo Fim da\nViolência contra Mulheres e Meninas para se\ndesenvolver sobre o tema, trocar experiências\ne articular redes interinstitucionais dedicadas\nà agenda.","24":"SETE AÇÕES QUE AS EMPRESAS PODEM IMPLEMENTAR\nPARA O ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER\nEstruturação de programa de compliance, com\ncanal de denúncia independente, treinamento\nda equipe e fluxo específico para situações de\ndiscriminação, assédio e violência de gênero.\nImplementação de serviço especializado no\natendimento a mulheres colaboradoras em\nsituação de violência, de preferência com\nparcerias com equipamentos públicos de\ndefesa dos direitos da mulher.\nTreinamento de gestores para lidar com relatos\nde violência contra mulheres na equipe,\nidentificar sinais de violência e proceder\nacolhimento às vítimas.\nPrograma de desenvolvimento de carreiras\nfemininas e outros grupos minorizados, com\nequidade de oportunidades e construção de\nambientes psicologicamente seguros.\nImplementação de Programa de Desenvolvimento\nde Masculinidades Saudáveis, com ações de\ndiálogo aberto e escuta empática com os\nhomens da organização.\nContribuição: Marina Spínola, diretora de Relações Institucionais e\nSustentabilidade da FDC","25":"RECENTES\nAVANÇOS NA LEGISLAÇÃO\nCONVENÇÃO 190 DA OIT\nPrimeiro tratado internacional a reconhecer o direito\nde todas as pessoas a um mundo de trabalho livre de\nviolência e assédio, incluindo violência e assédio com\nbase em gênero, foi estabelecido em junho de 2019 e\nentrou em vigor em junho de 2021. Até o momento,\nmais de dez países já ratificaram o tratado e, no Brasil,\nsegue em processo de aprovações para, então, ser\nratificado e entrar em vigor.\nA convenção amplia conceitos, aponta o papel dos\nempregadores na prevenção da violência e assédio e\nestabelece medidas práticas para garantir ambientes de\ntrabalho seguros, promovendo igualdade e respeito aos\ndireitos humanos. É um acordo legal obrigatório quando\nratificado por um país. Em linhas gerais, o tratado prevê:","26":"RECENTES AVANÇOS NA LEGISLAÇÃO\nCONVENÇÃO 190 DA OIT\nAbrangência: além do abuso físico, inclui\nassédio sexual, maus-tratos verbais, bullying,\ncoação, ameaças, privação de recursos e\nnegação de serviços.\nViolência doméstica: a C190 aborda a questão,\nconsiderando seu impacto na saúde e\nprodutividade dos trabalhadores. Empregadores\ndevem cuidar das(os) funcionárias(os) e\noferecer licenças pagas para vítimas.\nFontes de violência e assédio: pode vir de\nsupervisores, colegas, clientes, consumidores\ne outros, não apenas de empregadores.\nResponsabilidade: governos devem criar leis e\nregulamentos contra a violência. Empregadores,\ncom consulta a sindicatos, devem tomar\nmedidas para proporcionar um ambiente\nseguro. Sindicatos são importantes para\neliminar violência e assédio na sociedade.\nEm 09 de março de 2022, diversas\nempresas signatárias da Coalizão\nEmpresarial, lideradas pelo Instituto\nAvon, participaram de ato na Câmara\ndos Deputados, em Brasília, pela adesão\ndo Brasil ao tratado internacional.","27":"RECENTES AVANÇOS NA LEGISLAÇÃO\nLEI EMPREGA   MULHERES\nA Lei 14.457, conhecida como Emprega   Mulheres, foi\ncriada para diminuir os casos de assédio e fomentar a\ncontratação e a manutenção de mulheres no mercado\nde trabalho. Assim, cria obrigações relacionadas à\neducação, prevenção e resposta ao assédio para todas\nas empresas com mais de 20 funcionários, envolvendo:\nincluir regras de conduta a respeito do assédio\nsexual e de outras formas de violência nas\nnormas internas da empresa;\nfixar procedimentos para recebimento e\nacompanhamento de denúncias, para apuração\ndos fatos e, quando for o caso, para aplicação de\nsanções administrativas aos responsáveis diretos e\nindiretos pelos atos de assédio sexual e de violência;\nrealizar, com frequência mínima de 12 meses, ações\nde capacitação, de orientação e de sensibilização\ndos empregados e das empregadas de todos os\nníveis hierárquicos da empresa sobre temas\nrelacionados à violência, ao assédio, à igualdade\ne à diversidade no âmbito do trabalho.","28":"PRODUÇÃO E EQUIPE TÉCNICA\nARIELLE SAGRILLO SCARPATI\nPsicóloga, Mestre em Psicologia Social (UFES),\nDoutora em Psicologia Forense (University of\nKent), Consultora e parceira do Instituto Avon\nFERNANDA CASTRO FERNANDES\nAdvogada e Consultora para o Enfrentamento\nà Violência contra as Mulheres e Construção\nda Igualdade de Gênero da ONU Mulheres\nDANIELA GRELIN\nDiretora Executiva - Instituto Avon\nRENATA RODOVALHO\nGerente de Projetos - Instituto Avon\nIVANDA SOBRINHA\nCoordenadora da causa de Enfrentamento\nàs Violências contra Meninas e Mulheres -\nInstituto Avon\nGIULIANA BORGES\nCoordenadora de Comunicação\nMAYRA MEZZOMO\nConsultora de Programas\nAdaptação e revisão:\nFernanda T. Puleghini (MTb: 46.219)\nProjeto gráfico e produção:\nAgência Wonderful","29":"COLECIONÁVEIS EDIÇÃO 1\nEMPRESAS\nUNIDAS\nPELOS\nDIREITOS\nDAS\nMULHERES"}